O que muda na relação do profissional de Design de Interiores com o cliente na pós-pandemia?

Excerto da Palestra que realizamos no CONAD 2020

As transformações no uso e na organização da casa apresentadas, na primeira parte desta palestra pela Carol, apontam para novas maneiras de lidarmos com os espaços construídos, sejam esses públicos ou privados.

Essas mudanças sinalizam novas direções para a forma de vivermos socialmente. Assim, eu diria que essas possibilidades, que expomos aqui, indicam sim uma transformação do ponto de vista social… Mas não apenas!

Eu ouso dizer que essas mudanças, caso se concretizem, indicam o fim da “Modernidade Líquida”, como descrita pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman. A sociedade da modernidade líquida, conceituada pelo Bauman, seria uma consequência do processo de globalização do mundo, e se caracterizaria basicamente por 3 fatores:

– Fluidez

– Movimento

– Imprevisibilidade

Nesse contexto, família, amor, amizade, identidade se liquefazem. As formas de pensar, viver e agir seguem a moda. Valores e princípios são relativizados em nome das novidades, das tendências.

Os interesses econômicos sobrepõem-se às relações humanas. O senso de comunidade e de solidariedade são substituídos pelo lado mais obscuro do individualismo: o egoísmo.

Na sociedade líquida, o cidadão se torna consumidor, as relações são substituídas por conexões e a felicidade é reduzida ao prazer.

Então, por que trabalho com a hipótese de que o advento da pandemia do Covid-19 sinaliza o fim da Modernidade Líquida?

Porque ao sermos convocados ao isolamento social, somos chamados a repensar nossas prioridades. Confinados em casa, somos levados a refletir sobre o que é realmente essencial em nossas vidas: sejam objetos, atividades, lugares, pessoas…

Somos demandados a nos relacionarmos em profundidade com aqueles com quem habitamos. Temos de aprender a conviver, ou reconhecer que não sabemos ou queremos… Assim, nos vemos inclinados a repensar a validade das relações que estamos construindo.

Estar em casa ininterruptamente nos dá novas perspectivas do trabalho, do tempo, da vida. Estar em casa nos faz experienciar o espaço doméstico de outra forma. Exige que nos apropriemos da nossa casa.

Esse momento, de restrição da liberdade de circulação nos espaços públicos, faz da casa o espaço inequívoco da vida. O lugar, primeiro e último, no qual a vida é manifesta em todos os níveis da existência: espiritual, material, afetivo e cognitivo.

A casa da pandemia é local de trabalho, de lazer, de culto, de exercício… E, de repente, descobrimos que a casa precisa ser mais do que paredes sólidas e móveis harmonicamente compostos.

A casa da pandemia precisa ser lar, para que ela possa nos sustentar em nossa angústia, em nossos medos, em nossos sonhos, em nossa esperança.

E é aí que você, profissional de Design de Interiores, precisa rever sua relação com o cliente. Porque o cliente que emergirá do isolamento social apropriou-se da casa. Esse cliente terá outra perspectiva sobre a função, a estética e o lugar da casa na vida dele.

O profissional de Design de Interiores, para atender a esse novo cliente, precisará valer-se de ferramentas psicológicas que o ajudem a se vincular ao desejo do morador, não mais apenas tecnicamente, mas emocionalmente.

Esse novo cliente, que se anuncia, deixa de ser apenas “o proprietário”. Ele exigirá um relacionamento expressivo com o profissional que adentrará sua intimidade. Um relacionamento baseado em uma comunicação assertiva e positiva, na troca de experiências, no acolhimento da história, das necessidades e anseios de um morador que já não mais vê a própria casa como dormitório no fim do dia, ou vitrine para as visitas.

O morador que promete emergir da casa da pandemia, emerge tendo uma perspectiva da casa como espaço de transformação. Uma transformação que se inicia nos hábitos cotidianos, nas relações familiares, na rotina de trabalho, nas escolhas de modos de entretenimento, mas vai além… Tendendo a se expandir para a vida social e para os espaços fora de casa também.

Esse tempo confinados em casa nos transformará, totalmente ou parcialmente, e fará da casa o ponto de partida para uma mudança que ultrapassa a fronteiras de nossas vidas individuais.

Você, profissional de Design de Interiores, tem uma nobre tarefa nessa jornada de transformação. Caberá a você traduzir essa nova perspectiva do morar, ressignificando a casa.

Uma casa cuja sala exigiu se abrir para o convívio familiar, e exigirá se abrir para as amizades que sobreviverem ao distanciamento físico.

Uma casa cuja cozinha exigiu ocupar o protagonismo dos dias, nos intimando à aventura do processo alquímico de transformar ingredientes em alimento, refeições em afeto.

Uma casa cujo quarto exigiu não apenas o descanso do corpo, mas a restauração dos sentimentos e o abrigar dos sonhos.

Uma casa cuja varanda exigiu dos nossos olhos a capacidade de enxergar com carinho, e certa melancolia, o mundo externo que deixamos ao fecharmos a porta.

É esta casa que você precisa ajudar a construir, porque será a casa de um novo tempo, ainda que ele seja marcado pela lentidão que a mudança das mentalidades preconiza.

Um tempo que não reestabelecerá a sociedade sólida como a que precedeu Bauman, mas certamente não restaurará a sociedade líquida que ele descreveu.

Hoje, temos em mãos a oportunidade de erigir um novo modelo de sociedade. Menos superficial, menos consumista, menos egoísta, baseada em vínculos mais consistentes e profundos, e em uma relação mais significativa com o tempo e o espaço no qual vivemos.

A casa é o capítulo inicial dessa possibilidade de ressignificarmos a vida. E você, Designer de Interiores, pode ser o coautor dessa nova história.

Uma casa, um conto e uma experiência curiosa

Sempre interessado em experiências relacionadas ao morar, o filósofo Alain de Botton escreveu, há alguns anos, o livro Arquitetura da Felicidade, que rendeu documentário homônimo ainda mais interessante. Mas, neste projeto, batizado de Living Architecture, ele se supera: prova na prática todas as suas teorias de que as casas que habitamos podem ser muito mais interessantes, curiosas e instigantes. E que não vivê-las intensamente é um desperdício.

Por Carol

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A ideia é ousada: ele se aliou a escritórios de arquitetura ao redor do mundo para criar casas como a House For Essex, que estão abertas para que as pessoas passem temporadas. Assim, podem sentir na pele o que ele explica há tanto tempo. Você aluga a casa por alguns dias e pode viver a experiência sozinho ou com mais três amigos.

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Ludicidade

Esta em especial, perto da costa de Essex, na Inglaterra, traz uma ludicidade que remete a contos de fada. Seria, talvez, uma lenda moderna – coisa que atrai cada vez mais as novas gerações. Elaborada pelo escritório de arquitetura FAT, a casa é definida por eles como “uma declaração radical sobre a arquitetura e sua capacidade de narrativa e comunicação”, e idealizada como uma capela dedicada à santa Julie Cope, que conta uma história fictícia rica e complexa.

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O exterior, revestido por mais de 1900 azulejos verdes e brancos, traz símbolos associados à vida de Julie Cope. Ela aparece no telhado, em um cata-vento gigante. Tudo, para eles, se trata de um lugar monumental, acolhedor, talvez um pouco perturbador, mas divertido, sobretudo, já que os visitantes passam por uma série de desdobramentos de espaços – com paredes interessantíssimas, nos mais minuciosos detalhes.

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“É um devaneio tridimensional sobre a religião, história local, feminismo, felicidade e morte”, diz o autor, Charles Holland.

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Os preços para alugar as casas são salgados, mas não saem muito do que bons hotéis ingleses oferecem. Aqui, a experiência com cada objeto se transforma em dias imersos em um conto – e isso pode valer mais que uma estadia em qualquer hotel! www.living-architecture.co.uk.

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Curiosa, não? 

Mais casas do Living Architecture

Balancing Barn: casa suspensa que desafia a gravidade

Uma casa suspensa: assim é a Balancing Barn, que tem tijolinhos de inox. Repare no belo balanço no jardim – suspenso pela casa!

Secular Retreat tem paisagem bucólica ao redor

Com projeto do suíço Peter Zumthor, a casa Secular Retreat fica em Devon. É uma casa térrea repleta de janelas envidraçadas, para absorver a paisagem e relaxar completamente, longe do cenário urbano.

Shingle House: na praia

Muitas praias da Inglaterra são deixadas de lado. Esta é uma delas – perfeita para Alain se aliar ao NORD (Northern Office for Research and Design) a fim de um projeto que vê o lado poético da solitude. Com isso, pense em poltrona de leitura com vista para o mar, em uma cozinha aberta à paisagem da praia e interiores sóbrios, mas com um toque de cor.

Alain sempre pensa em experiências que façam o morador se relacionar com o entorno por meio da casa. Seja com a decoração ou pela arquitetura, o morar deve ter encanto, profundidade e fazer nossas vidas valerem a pena!

Fotos: Living Architecture

As portas coloridas de Dublin e outros fascínios

O que há por trás daquela porta? Quem nunca se pegou imaginando vidas por trás de uma? Essa curiosidade de Alice nos traz um universo simbólico que vai além do espaço arquitetônico. Uma porta, aberta ou fechada, cria nossos pequenos mundos. Ela interioriza nosso modo de vida como também nos oferece passagem para o “desconhecido”, a rua e seus desafios diários.

Por Thaiz Sabbagh *

13900811_1182614611760830_1842536969_n.jpgDublin é uma cidade de portas que instigam a nossa imaginação. Impossível não notá­-las ou apenas reduzi-­las ao mero posto de divisórias móveis. Em estilo georgiano, predominante entre 1730 e 1800, elas dão vida ao aspecto um tanto industrial e monótono das fachadas de tijolos de muitos prédios da cidade. Os motivos dos seus adornos e coloridos não possuem, no entanto, idoneidade histórica. O que as deixa ainda mais fascinantes, pois atiçam ainda mais a curiosidade dos passantes pelas inúmeras lendas urbanas que as habitam.

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Uma delas tem como ponto de partida a insubordinação e a rebeldia do povo irlandês à coroa britânica. Em 1861, a popularidade da Rainha Victoria estava bem em baixa por essas cercanias com a Grande Fome, que tirou milhares de vidas e forçou grande parte da população deixar a Ilha Esmeralda. Alheia à crise em território irlandês, a monarca apenas se comovia com a própria tristeza. A morte do príncipe Albert, com quem foi casada por 21 anos, deixou a rainha em estado de profunda melancolia.

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Logo após o anúncio de luto, ela teria ordenado que todas residências amanhecessem com bandeiras pretas postas na frente de cada casa. Foi então que um irlandês teria tido a ideia de colorir as portas em forma de protesto. A ideia teria sido comprada pela vizinhança e aos poucos foi se espalhando por toda Dublin.

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Esse rastro colorido por indignação, no entanto, é contestado por uma versão mais irreverente e boêmia desta história. O carregar das tintas parte da fama de “bons de copo” dos irlandeses. No caso, as entradas arco-­íris teriam surgido de esposas angustiadas, que já estavam cansadas de buscar os maridos bêbados em portas erradas. Logo, pintá-las de diferentes tons seria a solução para diferenciar residências praticamente iguais e muito próximas umas das outras, um verdadeiro desafio para os bebuns de plantão.

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Ninguém sabe explicar ao certo a verdadeira história, mas há um fato: os irlandeses não se desfazem de suas entradas coloridas. Uma voltinha por qualquer vizinhança de Dublin dá para perceber que preservar as portas georgianas é quase uma unanimidade. O aposentado Jean Bryan, 76, mora há um mais de 50 anos em uma casa com entrada nesse estilo e confirma essa observação. “Minha porta é original. Gosto de pensar em seu valor histórico e afetivo. Medi o crescimento dos meus filhos através dela”, conta em frente da sua casa, logo após se despedir da filha e dos netos que vieram visitá-­lo.

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Ver a passagem do tempo à medida em que os filhos foram crescendo foi uma função que agregou significado funcional e poético para a porta de Mr. Bryan. A verdade é que portas são sempre fascinantes, mesmo desvalidas da exuberância do estilo georgiano. Afinal, uma porta não é simplesmente uma barreira ou uma abertura. Ela é mais instigante que um muro ou uma fenda.

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Isso porque nos oferece explorar suas dimensões subjetivas através do abrir e do fechar. Em suaves ou bruscos movimentos, cria diferentes atmosferas e espaços, assim como estabelece relacionamentos sociais e expressa estados psicológicos. Quando estamos chateados, nos privamos do ambiente social e nos reguardamos por trás de uma. Portas ditam o ritmo de uma vida em sociedade. Quando elas se fecham, a cidade desacelera.

E assim, no virar da maçaneta, abrem­-se inúmeras significações. É o homem tentando compreender seus limites e domínios no vaivém do eixo de uma dobradiça.

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Fotos: Capa e 6 – Thaiz Sabbagh

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*Thaiz Sabbagh é jornalista e colaboradora internacional do Projeto Hestia. Trabalhou por quinze anos em redações de jornais e assessorias de imprensa. Já capitaneou inúmeros ensaios de moda, atuou como comentarista da CBN Vitória e fez parte do time de editoras de moda, estilo de vida e entretenimento do jornal A Gazeta. Como acredita que nunca é tarde, deu-se uma trégua. Tirou um ano sabático para viajar pela Europa, tendo Londres primeiramente como base. Hoje mora em Dublin, Irlanda, onde se apaixonou pela cidade que se faz alegre mesmo em dias cinzas na maior parte do ano. A capital irlandesa também se tornou seu ponto de partida na Europa para pesquisas e  produções de guias especializados para confecções e empresas gráficas do Brasil.

LEIA TAMBÉM: Casa dos Sonhos

As lições coloridas de Iris Apfel

A vida pulsa em cores, pesos, volumes, ao olharmos para Iris Apfel. Aos 94 anos, ela se tornou um ícone de moda, mas não só pelo que veste por fora, mas pelo que a reveste internamente: elegância e sabedoria. Deslumbrada com o universo criativo, exótica, aventureira à frente do tempo – é possível defini-la de várias formas. Mas a doce e fashion senhorinha surge como personalidade memorável no documentário Iris, disponível no Netflix. O que pouca gente sabe é que seu trabalho de decoradora a projetou a esse futuro.

Por Carol

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Nos anos 1950, Iris já trabalhava com tecidos de decoração e garimpos ao redor do mundo, o que a diferenciava dos decoradores da época. “A maioria das casas boas tinha peças minhas naquela época”, ela diz, no documentário. Assim, chegou à Casa Branca, a qual decorou por nove mandatos de presidentes diferentes. Parou apenas por um desentendimento com a lady Jackie Kennedy, que queria adotar um estilo mais parisiense, o que não fazia sentido para Iris. Afinal, se estavam nos Estados Unidos, deveriam se orgulhar do american way of life, não é?

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Chamada de pássaro raro na grandiosa exposição que homenageou sua carreira, Iris realmente sempre quis dar seu toque único a tudo o que a cerca. “A vida é cinza e sem graça. Quando você se veste, ou decora, é possível divertir as pessoas. E as cores podem ressuscitar os mortos”.

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Quer diversão?  Vá em direção à autenticidade, como Iris. Em sua casa, uma coleção de bichos de pelúcia se espalha pelo décor. Em alguns pontos, a mistura de estampas, abajures, móveis de estilo clássico mostra as múltiplas camadas que ela vive e veste. Confusão? Nada! Iris acha tudo muito harmônico – isso faz sentido a seus valores, diz muito sobre quem ela é. Na sala, um exótico avestruz, cuja asa revela um bar. Sobre ele está o sapo Caco, do desenho Muppet Babies, que parece embriagado, de óculos.

Carl and Iris Apfel in their Palm Beach home, May 10, 2007.

Há alguns anos, seu marido, Carl, se foi. Grande admirador que vibrava em meio às cores de Iris, ele a acompanhou pelo mundo em busca de objetos e móveis que faziam toda a diferença nas casas americanas que ela decorou. O interessante é que os garimpos eram pinçados intuitivamente. Iris não se importa com onde encontrou cada artigo – ela visita das feirinhas às maisons, e diz que essa é a parte interessante da vida: deixar-se atrair pelas cores, não importa onde elas estejam. Afinal, o que importa para ela é se divertir, criar e rir bastante. Uma bela lição.

Fotos: AD Lifestyle

Algumas das imagens utilizadas são de divulgação. Se você é autor de uma ou mais delas, e não foi devidamente citado, entre em contato conosco aqui.

A casa de Irene, de Sandra Rosa Madalena… e de quem mais quiser!

Anões de jardim, jarra para suco em formato de abacaxi, pinguim de geladeira, estátua de flamingo, almofada de cetim com babado, reprodução de pintura famosa, globo de espelhos, imagem de santo com iluminação colorida, objetos de decoração com monograma da marca ostensivamente visível, tapete ou manta em padronagem animal e/ou tecido simulando pele de bicho, cortinas e estofamentos em veludo nos trópicos,  souvenir de viagem replicando monumento famoso, Arte Pré-rafaelita… Qual é a sua escolha kitsch? Afinal, de poeta, de louco e de brega talvez todo mundo tenha um pouco!

Por Angelita

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A palavra “Kitsch” é a denominação universal para o brega. Apesar da origem da palavra ser ambígua, há um quase consenso de que ela surgiu na língua alemã em meados do século XIX. Supõe-se que o vocábulo kitsch esteja vinculado às palavras “kitschen” e “verkitschen”, ambas remontam ao lixo, ao que é barato e/ou falso. Ou seja, o termo kitsch tende a ser uma declaração pejorativa sobre alguma coisa, remete a algo que é fonte de prazer para as massas, à vulgaridade, ao comum, isento de sofisticação intelectual e estética.

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Os comerciantes de arte de Munique consolidaram o adjetivo kitsch nos anos 1860 e 1870 como um jargão profissional que designava “material artístico barato”. Mas foi em meados do século XX que o kitsch ganhou força teórica, sendo utilizado para descrever objetos e um modo de vida característico da urbanização e da produção em massa de produtos e de bens de consumo. Países altamente industrializados como Japão, Estados Unidos e Alemanha costumam ser uma fonte generosa para a disseminação do kitsch pelo planeta. E é nos EUA, no começo da década de 1960, que um movimento defendido pela crítica de arte Susan Sontag propõe resgatar o prazer e o encanto pelo modo de vida atribuído aos populares. Esse movimento gerou uma apreciação do kitsch exatamente pelo que ele é: excessivo, melodramático, piegas, familiar, ordinário!

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O início da segunda metade do século XX foi marcado por uma apropriação do kitsch pela Arte. Artistas pop abraçaram o kitsch, utilizando técnicas de produção em massa para criar objetos, e um  estilo, assentados na estética da cultura popular urbana, suburbana e na vida comercial e industrial. Na decoração, o kitsch quase sempre está associado à coragem de não se ater às tradições pré-definidas de bom gosto. O kitsch exagera e desafia todos os outros estilos. Maximalistas e personalidades brilhantes e aqueles que não se preocupam com as opiniões dos outros, ou que gostam de fazer alarde e se destacar da massa cinzenta, costumam apreciar o kitsch.

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Ambientes no estilo kitsch excedem em objetos e enfeites baratos, figurativos, literais e que são versões falsas de outra coisa. O kitsch também pode “dar a pinta” em ambientes que se esforçam para parecerem luxuosos. O mix de referências é uma constante, pode coexistir no mesmo espaço revestimentos dourados imitando ouro, detalhes rústicos, cortinas de contas e flores de plástico. Muito embora o kitsch seja mais recorrente em decorações com ares mais tradicionais e românticos, ele também aparece em propostas contemporâneas. Os amantes do kitsch adoram o vermelho, mas a paleta de cores escolhida pode oferecer combinações as mais improváveis. Mas, e se você gosta de alguma coisa kitsch mas não quer um ambiente inteiro nesse estilo? Você pode dar destaque a uma peça única que expresse a força dessa criatura brega e tímida que te habita.

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Uma poltrona de laca vermelha em um ambiente clássico ou minimalista, um par de almofadas rendadas displiscentemente jogadas no sofá, um bibelô ou dois exibindo-se na estante de livros, uma reprodução de Roy Lichtenstein  ou Andy Warhol na parede. Também pode ser aquela já clássica pintura de Iemanjá saindo do mar entre as ondas! O ponto de exaltação do kitsch na sua casa, se você quiser ter um, vai depender da sua peça favorita, daquele elemento que faz a criatura brega em você se comover passionalmente com uma lembrança qualquer da sua herança popular. Ou seja, que te faz lembrar com carinho desse lugar anônimo que ocupamos na grande massa que habita a história do mundo moderno e contemporâneo.

Obs.: “A Casa de Irene”, assim como “A Cigana Sandra Rosa Madalena”, são clássicos da música brega brasileira. A primeira fez sucesso na voz de Agnaldo Timóteo, e a segunda é um dos hits de Sidney Magal.

Foto 1: Pinterest

Foto 2: Eaton House Studio

Foto 3: Houzz

Foto 4: Freshhome

Foto 5: Hospitality On

Foto 6: Architecture Art Design

 

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Garimpo no brechó

A gente tem prioridades na vida, eu sei. As coisas custam cada vez mais caro, e às vezes evitamos passar em frente às vitrines. Muita gente acaba deixando a casa lá no pé da lista de renovação. Vêm em fileiras as compras do mercado, as roupas, as viagens, o carro, tantas coisas… (E comigo não é diferente!) Mas uma hora casa vai ficando chata, sem novidade, sem graça. É assim aí também?

Por Carol

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A solução vem do passado. Uma visitinha aos brechós e até mesmo a sites de usados pode evitar o tédio decorativo. Dá pra encontrar coisas ótimas, interessantíssimas. Essa cadeira estilo Thonet da foto, por exemplo, é um achado. Em um dia de andanças com o amigo Vinicius Alberto Moraes, encontramos essa beleza por R$ 50, em um brechó. Com mais uma grana, pedimos à artista plástica Estelita Ferreira pra dar um tapa – ela descascou a cadeira, descobriu que a lindinha já havia sido vermelha e verde no passado, colocou folha de ouro para o mix ficar nobre e pronto! A cadeira veio para o futuro. Hoje, é mais uma companheira de aventuras. Vai com a família aonde for, porque tem história.

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Minhas dicas:

– Confira se a estrutura do móvel é firme. Digo que comprar em sites de usados é usar a sorte: nunca dá pra sentir a peça, que pode estar bamba, pode estar oca. Se quiser que dê certo mesmo, peça pra ver antes de pagar, ou peça mais fotos, ou uma garantia.

– Pechinche. Ainda mais nessas épocas em que todo mundo dá desconto, se você tem grana na mão, sempre pode pagar menos.

– Renove o que comprou. Essa cadeira não seria a mesma se não passasse pelas mãos de uma artista inspirada, que a enobreceu com folha de ouro. Eu poderia te aconselhar a ousar, a fazer você mesmo, mas não! Não indico. É preciso lixar, preparar a peça… enfim, só faça se quiser arriscar bastante, ou se tiver confiança de que seu acabamento é muuuito bom. Vai por mim.

Fotos: Pinterest e Carol Scolforo

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O seu cosmos

As leis da física sempre encantaram a humanidade. E de acordo com as previsões de estudiosos no assunto, o interesse no tema tende a crescer nesses tempos. Este é o momento em que o homem começa a olhar para o céu, em busca de vida em outros planetas, e se abre às perspectivas, às teorias e aos estudos sobre o cosmos, de acordo com o recém-inaugurado Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. Também estaremos cada vez mais fascinados por objetos que tenham essa temática.

Por Carol

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Eis que me deparo, dia desses, com o Air Bonsai, protótipo japonês prestes a ser lançado, e pensei sobre esses gadgets que prometem tornar nossas casas ainda mais curiosas. A empresa chama o bonsai de “little star”, e entrega o kit (com o ímã, a base e o bonsai), para você montar em casa. Ela flutua como se fosse o planeta do Pequeno Príncipe!

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Gostou? Talvez você curta também a Luna, uma luminária que reproduz fielmente as crateras da Lua e foi criada justamente para que admiremos nosso satélite natural todas as noites, ou pelo menos pra que a gente sinta o clima gostoso dessa luz por perto.

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Feitas de vidro, as Space Glasses do designer Satoshi Tomizu nos fazem imaginar a beleza das galáxias. Também nos lembra que há bilhões delas acima de nossas cabeças e nem conseguimos sair da nossa própria Via Láctea para vasculhar o mundo. Dá até pra colecionar essas joias que ele esculpe sobre vidro. Veja como elas nascem AQUI.

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E se você tá aí descansando nesse feriado e gostou do assunto, “vá” ao Netflix e assista o documentário Cosmos, que é emocionante, no mínimo. Vai entender mais sobre como faz parte desse universo incrível e talvez se sinta um grão de areia, como me senti – mas garanto que vale a pena!

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Espelho, espelho meu…

Talvez você nem perceba, mas há muita coisa que pode ser dita sobre a personalidade de uma pessoa apenas observando a maneira como ela organiza e decora a própria casa. Aquilo que nos acostumamos a reconhecer como sendo nossa personalidade define a maneira como interagimos com o mundo a nossa volta. O ambiente que montamos para viver tende a expressar essa visão, revelando crenças, atitudes e valores que acreditamos, consciente ou inconscientemente, definir a pessoa que somos ou a que queremos parecer ser.

Por Angelita

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É claro, porém, que a maneira como uma casa é decorada pode estar associada a muitas outras coisas que não refletem apenas a personalidade dos moradores. Fatores como situação financeira, autonomia para intervir no ambiente e condições arquitetônicas da construção podem pesar muito na hora de decidir como morar. Mas considerando uma situação ideal na qual você seria o criador do projeto da sua casa, começando do zero, como ela seria? Que estilo você adotaria? E o que ele poderia revelar sobre a sua personalidade?

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O estilo Clássico: costuma ser a escolha das pessoas mais tradicionalistas, com interesses em temas como cultura, política e história. É comum que sejam pessoas que valorizam o conforto, pois geralmente os móveis de estilo clássico são amplos, com tecidos de fibras naturais e aconchegantes. Bem provável que seja uma pessoa com uma visão estética bem clara do que lhe agrada ou não, e que tenha um apreço especial por peças com alguma tradição histórica. Como tendem ao conservadorismo, os amantes do clássico podem ser percebidos como portadores de uma personalidade rígida, influenciada por convicções arraigadas em todas as questões da vida e não somente no design.

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O estilo Luxuoso: pode-se defini-lo por uma afinidade excessiva com artigos de marcas conceituadas e com símbolos de status social como acabamentos caros, muitos espelhos e a exibição de eletrônicos e de eletrodomésticos de última geração. Costuma ser a escolha de pessoas extrovertidas – ou que se esforçam para sê-lo – e indica uma necessidade de viver a vida intensamente, de conviver com as pessoas, de estar onde os outros estão, de “não perder nada”, o que pode levá-las a serem percebidas como superficiais. Esse tipo aprecia receber amigos e conhecidos em casa e costuma apresentar alto nível de energia e de disposição. Como tende a valorizar consideravelmente a opinião dos outros, os adeptos desse estilo correm o risco de se tornarem reféns das tendências do momento e do estilo de decoração do profissional que contratam.

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O estilo Minimalista: algumas enquetes realizadas com pessoas dos mais diversos tipos e culturas apontam para o fato de que a maioria delas não suporta a ideia de habitar uma casa minimalista! Talvez porque o tipo de personalidade que se sente atraída por este estilo não seja tão comum. Pessoas extremamente organizadas e eficientes no que se propõem a fazer costumam adotar o minimalismo. O indivíduo que opta pelo minimalismo aprecia linhas puras, design conceitual, qualidade, praticidade e funcionalidade. Por sempre buscar a excelência, o fã do minimalismo tende a ser perfeccionista e metódico, determinado e introvertido… A descrição de uma personalidade que comumente é apreciada nos personagens de comédias – o Sheldon de Big Bang Theory, por exemplo – mas que na vida real costuma ser percebida como chata.

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O estilo Boho: também conhecido como “hippie chic”, esse estilo costuma estar relacionado a pessoas que gostam de ter contato com diversidade de culturas e tipos humanos. É comum que o apreciador do estilo boho seja adepto de alguma religião e/ou filosofia de vida pouco convencional e que tenha um genuíno apreço pela natureza. Há no fã desse estilo uma certa nostalgia associada a um encantamento pelo passado, seja a década de 1970 ou a Idade Média. Quase sempre esse vínculo com o passado é mais uma idealização de outras épocas do que fruto de conhecimento histórico. Aliás, o idealismo tende a ser um aspecto importante na personalidade do adepto do estilo boho, seja político, cultural ou de qualquer outra ordem. Por sua disponibilidade social e certa dose de entusiasmo com causas e temas do momento, a personalidade do amante do estilo boho pode ser percebida por muitos como passional e inconsequente.

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O estilo Escandinavo: vem ganhado espaço nas duas últimas décadas e se firmando como referência de estilo. Possui afinidades com o minimalismo, mas é menos frio e duro. Por trás do predomínio do uso de cores claras e de poucos móveis, há no estilo escandinavo certa dose de fantasia, simplicidade, conforto, familiaridade, calor e aconchego. A pessoa que se interessa por esse estilo costuma ser caseira e faz questão de que o gosto pessoal esteja refletido no projeto de decoração. Em geral, o fã do estilo escandinavo valoriza muito as noções de território pessoal, de privacidade e de autenticidade. É comum que os adeptos desse estilo estejam em contato com a cena cultural mundial e que apreciem igualmente a estética característica do velho mundo e as inovações do design contemporâneo. Por tenderem a uma afirmação constante dos próprios valores e interesses, os que adotam o estilo escandinavo podem ser percebidos como individualistas e pouco flexíveis.

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O estilo Eclético: caracterizado pela mistura de estilos e com referências vintage, atrai pessoas independentes e que apreciam a originalidade. Os adeptos desse estilo costumam ser detalhistas e criteriosos na escolha dos acessórios e acabamentos, pois são eles que ajudam a criar um ambiente único, diferente de tudo. Há entre os entusiastas do estilo eclético uma afinidade com o referencial afetivo da estética do passado, com o glamour hollywoodiano e com a liberdade criativa do universo das artes em geral. É recorrente para os fãs do estilo eclético investir grandes quantidades de tempo, energia e dinheiro para concretizarem o ambiente que idealizaram. Isso tem a ver com a confiança que demonstram ter em tudo o que fazem, e em como assertivamente brigam pelo que querem. Por sempre buscar exaustivamente o que predeterminou, o adepto do estilo eclético pode vir a ser percebido como excêntrico e exigente.

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Obviamente, essas definições não são universais, mas apenas generalizações sobre características de personalidade e estilos de design. Você pode se reconhecer nelas ou não! Você pode até se reconhecer em várias delas, e talvez esse seja o seu estilo: uma mistura absolutamente única de dois ou mais estilos! Você pode mesmo se identificar com algum estilo que nem foi descrito aqui, como o Rústico ou o Provençal. O fato, contudo, é que muitas pessoas se sentem inibidas diante da possibilidade de ter de definir como querem a decoração de suas casas. É comum que as pessoas tenham medo de errar nas escolhas das cores, móveis e acessórios, que se sintam desqualificadas para defenderem o que gostam e querem nas suas casas. Não se sinta! Acredite-me, é melhor que as decisões relativas a sua casa causem impacto por refletirem sua personalidade do que permitam que o seu espaço fique parecendo um lobby de hotel ou um showroom de decoração. Ou seja, é melhor “errar” sendo você mesmo do que “acertar” sucumbindo às determinações dos outros!

Fotos: Pinterest

 

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O padrão de beleza (de casa) que carregamos

É uma verdade que o tempo todo somos bombardeados com padrões de beleza, de felicidade… e de casa bonita, também. Ontem o economista Samy Dana escreveu um texto interessante sobre esses padrões e o imediatismo que vivemos. A conclusão dele é que vivemos tempos de prazeres imediatos, de felicidades que talvez não sejam duradouras, de alegrias copiadas. Vemos o sorriso de alguém em uma publicidade e queremos o que a pessoa usa, sem ao menos nos questionarmos se aquilo nos fará felizes.

Por Carol

Anthony baratta

O problema é que às vezes não paramos pra pensar que assim como acontece com o nosso corpo, leva tempo para descobrirmos uma identidade para a nossa casa. Não é algo que se compra pronto, mas que se exercita. Pode levar anos… Pode ser também que nesse caminho de descobertas você precise da ajuda de um arquiteto para organizar todas as ideias que a tornem única. Pode ser que brigue com o arquiteto porque ele quer colocar a cara (e a assinatura) dele no seu projeto. Mas não pegue o atalho mais fácil, aquele do “quero igual”.

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Sabe aquela casa linda que você viu no programa de TV e disse ‘uau’? Talvez ela só dê certo lá. Os ambientes do designer Anthony Baratta, que ilustram esse post, por exemplo, foram pensados para pessoas diferentes de mim e de você. Cá pra nós, sem ilusões, depois das fotos feitas, a bagunça da vida real tomou conta desses espaços. Querer fazer parecido é o mesmo que copiar a dieta “que deu certo” da sua amiga. As necessidades são diferentes, o metabolismo dela talvez seja mais (ou menos) acelerado, e enfim, os objetivos são outros. Ou seja: suas fórmulas, suas histórias, cores, cheiros e sabores precisam ser descobertos e exercitados aí, nos metros quadrados que você possui ou aluga. Esse sim é um patrimônio no qual vale a pena investir, e que te fará feliz por um bom tempo. É um momento único de descobertas, que vale a pena viver – e não copiar.

Fotos: Design de Anthony Baratta/ divulgação

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