A moda é ser feliz

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Por Carol Scolforo

Se a casa tem papel fundamental na alegria de viver, qual é o sentido de buscar na vitrine da loja o pacote completo do contentamento? Mais sensato é recorrer à alma do lar, e de quem vive nele, para decorá-lo com legitimidade.

Às vezes teimamos em levar para casa o sonho que se vende na loja – seja o móvel, o objeto decorativo, a cor da parede, a TV para lá de moderna ou um determinado piso. No entanto, devidamente instaladas, as aquisições podem não fazer sentido nenhum. A sensação é estranha, de que algo não vai bem. Inconscientemente, nos sentimos mal em um lugar que deveria nos atrair e revigorar nosso humor. Pois é. Adotar o que está na moda simplesmente porque é moda ou a tendência do momento sem que caia bem ao seu estilo é quase atropelar a personalidade dos moradores. Por fim, nos sentimos mais em casa fora dela do que entre suas paredes.

Mais do que local de abrigo e proteção, a casa é nossa terceira pele, nossa esfera de reconhecimento. Como diz o filósofo suíço-britânico Alain de Botton, em seu livro A arquitetura da felicidade, “um lar é um espaço que consegue tornar consistentemente disponíveis para nós as verdades importantes que o mundo amplo ignora, ou que nosso eu distraído tem dificuldade em manter”. Botton é um dos estudiosos que buscam mudar o foco do assunto para o indivíduo, sem deixar de lado a estética ou a funcionalidade. Ele está interessado em mostrar os valores, sonhos e memórias que dificilmente estão impressos nos catálogos de decoração.

“Um lar é um espaço que consegue tornar consistentemente disponíveis para nós as verdades importantes que o mundo amplo ignora, ou que nosso eu distraído tem dificuldade em manter”

Alain de Botton, em A arquitetura da felicidade

Ninguém está ofendendo nenhuma tendência, é claro. Afinal, a maioria delas sai de estudos importantes para facilitar a rotina, levando em conta o estilo de vida de cada um. Mas fazer uma triagem que tenha a ver comas próprias verdades é essencial para morar bem. Quer um exemplo? Quando se espalhou pelo mundo a ideia americana demorar em loft, muita gente adotou esse estilo de vida. No entanto, a derrubada de paredes se choca como desejo de privacidade. “Os moradores de uma casa têm necessidades diferentes e se refugiam em cantos distintos. A privacidade garante que cada um expresse seu desejo”, diz a psicóloga capixaba Angelita Corrêa Scardua, mestre em psicologia social e especialista em neurociências e comportamento. Mesmo que haja na casa um morador único, a banalização visual dos ambientes pode se tornar um fator estressante, cansativo.

Falta de funcionalidade é outro aspecto que irrita. “A estética precisa ser funcional”, frisa Angelita, citando cubas de lavabo muito rasas, outra tendência amplamente utilizada nos últimos tempos. “Algumas aplicações ficam só de enfeite, as pessoas acabam deixando-as de lado. E gera estresse um investimento inutilizado. ” Também irrita e incomoda ver reparos por fazer, segundo Alain de Botton: a falta de iniciativa se escancara.

A mesma sensação estática se aplica a uma casa que pouco se renova, que tem uma decoração definitiva. “É preciso criar espaço para o novo entrar e estimular o cérebro. Um lugar onde nada muda há anos sinaliza uma espécie de inércia emocional”, aponta Angelita Scardua. Ao mesmo tempo, incluir muita tecnologia no espaço doméstico também pode estagnar a atividade dos moradores. Equipamentos eletrônicos em excesso no quarto, por exemplo, interferem na energia entre essas quatro paredes. “Claro que as tecnologias são necessárias, mas pelo menos o quarto, que é um lugar de descanso, deve evitar concentrá-las”, detalha a bioarquiteta capixaba Kelly Guariento Marques.

“A CASA É O LUGAR ONDE SE ABRIGAM VONTADES, DESEJOS, SONHOS. POR ISSO NÃO PODE SER UM PRODUTO DESCARTÁVEL”
Maria Elvira Rofete, arquiteta

Facilidades como essas tornam mais fácil a correria da rotina. No entanto, escanteiam a profundidade de uma moradia. “As pessoas acabam passando pela casa. Vivem correndo e deixam de lado os sentidos, a percepção desse lugar. Por isso adotam a moda. Falta profundidade em morar, falta alma nos ambientes”, observa a designer de interiores paulistana Maristela Gorayeb. Essa história ainda pode ser revertida, se forem privilegiados aspectos emocionais como memórias de família, boas histórias, aromas, sons, texturas e suavidade visual (simplicidade, não monotonia). Assim, a casa se torna verdadeiramente revigorante.

Afinal de contas, a moda é o que queremos que os outros percebam, como diz a arquiteta, urbanista e professora do Centro Universitário Belas Artes de São Paulo, Maria Elvira Rofete. “Já o estilo, dentro de casa, é o que somos. E não o sonho que se vende na loja ou na mostra de decoração.”

Publicado originalmente em Casa e Jardim