14/08/2020
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O que muda na relação do profissional de Design de Interiores com o cliente na pós-pandemia?

Excerto da Palestra que realizamos no CONAD 2020 As transformações no uso e na organização da casa apresentadas, na primeira parte desta palestra pela Carol, apontam para novas maneiras de lidarmos com os espaços construídos, sejam

Excerto da Palestra que realizamos no CONAD 2020

As transformações no uso e na organização da casa apresentadas, na primeira parte desta palestra pela Carol, apontam para novas maneiras de lidarmos com os espaços construídos, sejam esses públicos ou privados.

Essas mudanças sinalizam novas direções para a forma de vivermos socialmente. Assim, eu diria que essas possibilidades, que expomos aqui, indicam sim uma transformação do ponto de vista social… Mas não apenas!

Eu ouso dizer que essas mudanças, caso se concretizem, indicam o fim da “Modernidade Líquida”, como descrita pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman. A sociedade da modernidade líquida, conceituada pelo Bauman, seria uma consequência do processo de globalização do mundo, e se caracterizaria basicamente por 3 fatores:

– Fluidez

– Movimento

– Imprevisibilidade

Nesse contexto, família, amor, amizade, identidade se liquefazem. As formas de pensar, viver e agir seguem a moda. Valores e princípios são relativizados em nome das novidades, das tendências.

Os interesses econômicos sobrepõem-se às relações humanas. O senso de comunidade e de solidariedade são substituídos pelo lado mais obscuro do individualismo: o egoísmo.

Na sociedade líquida, o cidadão se torna consumidor, as relações são substituídas por conexões e a felicidade é reduzida ao prazer.

Então, por que trabalho com a hipótese de que o advento da pandemia do Covid-19 sinaliza o fim da Modernidade Líquida?

Porque ao sermos convocados ao isolamento social, somos chamados a repensar nossas prioridades. Confinados em casa, somos levados a refletir sobre o que é realmente essencial em nossas vidas: sejam objetos, atividades, lugares, pessoas…

Somos demandados a nos relacionarmos em profundidade com aqueles com quem habitamos. Temos de aprender a conviver, ou reconhecer que não sabemos ou queremos… Assim, nos vemos inclinados a repensar a validade das relações que estamos construindo.

Estar em casa ininterruptamente nos dá novas perspectivas do trabalho, do tempo, da vida. Estar em casa nos faz experienciar o espaço doméstico de outra forma. Exige que nos apropriemos da nossa casa.

Esse momento, de restrição da liberdade de circulação nos espaços públicos, faz da casa o espaço inequívoco da vida. O lugar, primeiro e último, no qual a vida é manifesta em todos os níveis da existência: espiritual, material, afetivo e cognitivo.

A casa da pandemia é local de trabalho, de lazer, de culto, de exercício… E, de repente, descobrimos que a casa precisa ser mais do que paredes sólidas e móveis harmonicamente compostos.

A casa da pandemia precisa ser lar, para que ela possa nos sustentar em nossa angústia, em nossos medos, em nossos sonhos, em nossa esperança.

E é aí que você, profissional de Design de Interiores, precisa rever sua relação com o cliente. Porque o cliente que emergirá do isolamento social apropriou-se da casa. Esse cliente terá outra perspectiva sobre a função, a estética e o lugar da casa na vida dele.

O profissional de Design de Interiores, para atender a esse novo cliente, precisará valer-se de ferramentas psicológicas que o ajudem a se vincular ao desejo do morador, não mais apenas tecnicamente, mas emocionalmente.

Esse novo cliente, que se anuncia, deixa de ser apenas “o proprietário”. Ele exigirá um relacionamento expressivo com o profissional que adentrará sua intimidade. Um relacionamento baseado em uma comunicação assertiva e positiva, na troca de experiências, no acolhimento da história, das necessidades e anseios de um morador que já não mais vê a própria casa como dormitório no fim do dia, ou vitrine para as visitas.

O morador que promete emergir da casa da pandemia, emerge tendo uma perspectiva da casa como espaço de transformação. Uma transformação que se inicia nos hábitos cotidianos, nas relações familiares, na rotina de trabalho, nas escolhas de modos de entretenimento, mas vai além… Tendendo a se expandir para a vida social e para os espaços fora de casa também.

Esse tempo confinados em casa nos transformará, totalmente ou parcialmente, e fará da casa o ponto de partida para uma mudança que ultrapassa a fronteiras de nossas vidas individuais.

Você, profissional de Design de Interiores, tem uma nobre tarefa nessa jornada de transformação. Caberá a você traduzir essa nova perspectiva do morar, ressignificando a casa.

Uma casa cuja sala exigiu se abrir para o convívio familiar, e exigirá se abrir para as amizades que sobreviverem ao distanciamento físico.

Uma casa cuja cozinha exigiu ocupar o protagonismo dos dias, nos intimando à aventura do processo alquímico de transformar ingredientes em alimento, refeições em afeto.

Uma casa cujo quarto exigiu não apenas o descanso do corpo, mas a restauração dos sentimentos e o abrigar dos sonhos.

Uma casa cuja varanda exigiu dos nossos olhos a capacidade de enxergar com carinho, e certa melancolia, o mundo externo que deixamos ao fecharmos a porta.

É esta casa que você precisa ajudar a construir, porque será a casa de um novo tempo, ainda que ele seja marcado pela lentidão que a mudança das mentalidades preconiza.

Um tempo que não reestabelecerá a sociedade sólida como a que precedeu Bauman, mas certamente não restaurará a sociedade líquida que ele descreveu.

Hoje, temos em mãos a oportunidade de erigir um novo modelo de sociedade. Menos superficial, menos consumista, menos egoísta, baseada em vínculos mais consistentes e profundos, e em uma relação mais significativa com o tempo e o espaço no qual vivemos.

A casa é o capítulo inicial dessa possibilidade de ressignificarmos a vida. E você, Designer de Interiores, pode ser o coautor dessa nova história.

angelita.scardua@gmail.com

Psicóloga, Angelita Scardua tem pesquisado a experiência de felicidade, individual e coletiva, nos últimos 20 anos. Aqui no Hestia, compartilha o que tem descoberto sobre o impacto do ambiente no nosso bem-estar psicológico, tanto em seu caráter simbólico e cultural quanto em seus aspectos neurofisiológicos e comportamentais.

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