As portas coloridas de Dublin e outros fascínios

O que há por trás daquela porta? Quem nunca se pegou imaginando vidas por trás de uma? Essa curiosidade de Alice nos traz um universo simbólico que vai além do espaço arquitetônico. Uma porta, aberta ou fechada, cria nossos pequenos mundos. Ela interioriza nosso modo de vida como também nos oferece passagem para o “desconhecido”, a rua e seus desafios diários.

Por Thaiz Sabbagh *

13900811_1182614611760830_1842536969_n.jpgDublin é uma cidade de portas que instigam a nossa imaginação. Impossível não notá­-las ou apenas reduzi-­las ao mero posto de divisórias móveis. Em estilo georgiano, predominante entre 1730 e 1800, elas dão vida ao aspecto um tanto industrial e monótono das fachadas de tijolos de muitos prédios da cidade. Os motivos dos seus adornos e coloridos não possuem, no entanto, idoneidade histórica. O que as deixa ainda mais fascinantes, pois atiçam ainda mais a curiosidade dos passantes pelas inúmeras lendas urbanas que as habitam.

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Uma delas tem como ponto de partida a insubordinação e a rebeldia do povo irlandês à coroa britânica. Em 1861, a popularidade da Rainha Victoria estava bem em baixa por essas cercanias com a Grande Fome, que tirou milhares de vidas e forçou grande parte da população deixar a Ilha Esmeralda. Alheia à crise em território irlandês, a monarca apenas se comovia com a própria tristeza. A morte do príncipe Albert, com quem foi casada por 21 anos, deixou a rainha em estado de profunda melancolia.

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Logo após o anúncio de luto, ela teria ordenado que todas residências amanhecessem com bandeiras pretas postas na frente de cada casa. Foi então que um irlandês teria tido a ideia de colorir as portas em forma de protesto. A ideia teria sido comprada pela vizinhança e aos poucos foi se espalhando por toda Dublin.

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Esse rastro colorido por indignação, no entanto, é contestado por uma versão mais irreverente e boêmia desta história. O carregar das tintas parte da fama de “bons de copo” dos irlandeses. No caso, as entradas arco-­íris teriam surgido de esposas angustiadas, que já estavam cansadas de buscar os maridos bêbados em portas erradas. Logo, pintá-las de diferentes tons seria a solução para diferenciar residências praticamente iguais e muito próximas umas das outras, um verdadeiro desafio para os bebuns de plantão.

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Ninguém sabe explicar ao certo a verdadeira história, mas há um fato: os irlandeses não se desfazem de suas entradas coloridas. Uma voltinha por qualquer vizinhança de Dublin dá para perceber que preservar as portas georgianas é quase uma unanimidade. O aposentado Jean Bryan, 76, mora há um mais de 50 anos em uma casa com entrada nesse estilo e confirma essa observação. “Minha porta é original. Gosto de pensar em seu valor histórico e afetivo. Medi o crescimento dos meus filhos através dela”, conta em frente da sua casa, logo após se despedir da filha e dos netos que vieram visitá-­lo.

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Ver a passagem do tempo à medida em que os filhos foram crescendo foi uma função que agregou significado funcional e poético para a porta de Mr. Bryan. A verdade é que portas são sempre fascinantes, mesmo desvalidas da exuberância do estilo georgiano. Afinal, uma porta não é simplesmente uma barreira ou uma abertura. Ela é mais instigante que um muro ou uma fenda.

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Isso porque nos oferece explorar suas dimensões subjetivas através do abrir e do fechar. Em suaves ou bruscos movimentos, cria diferentes atmosferas e espaços, assim como estabelece relacionamentos sociais e expressa estados psicológicos. Quando estamos chateados, nos privamos do ambiente social e nos reguardamos por trás de uma. Portas ditam o ritmo de uma vida em sociedade. Quando elas se fecham, a cidade desacelera.

E assim, no virar da maçaneta, abrem­-se inúmeras significações. É o homem tentando compreender seus limites e domínios no vaivém do eixo de uma dobradiça.

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Fotos: Capa e 6 – Thaiz Sabbagh

1, 2, 3, 4, 5, 7 e 8 – Enio Narimatsu

*Thaiz Sabbagh é jornalista e colaboradora internacional do Projeto Hestia. Trabalhou por quinze anos em redações de jornais e assessorias de imprensa. Já capitaneou inúmeros ensaios de moda, atuou como comentarista da CBN Vitória e fez parte do time de editoras de moda, estilo de vida e entretenimento do jornal A Gazeta. Como acredita que nunca é tarde, deu-se uma trégua. Tirou um ano sabático para viajar pela Europa, tendo Londres primeiramente como base. Hoje mora em Dublin, Irlanda, onde se apaixonou pela cidade que se faz alegre mesmo em dias cinzas na maior parte do ano. A capital irlandesa também se tornou seu ponto de partida na Europa para pesquisas e  produções de guias especializados para confecções e empresas gráficas do Brasil.

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